Um quase projeto nos tempos de IA.
- tiagoalonso9
- 11 de mai.
- 3 min de leitura
Uma ligação internacional para tratar de um projeto em um dos estados mais belos do Nordeste, uma terra pela qual guardo profundo carinho, seus ventos alísios predominantes. Nos primeiros minutos imaginei estar diante de mais um encontro para um projeto nascer com toda expressão naquela área. Não demorou dez minutos para compreender que, do outro lado da linha, havia algo além de um cliente: um homem de mais de sessenta anos, experiente ao residir em diferentes países, tentando salvar um empreendimento que já nascia desconectado da realidade técnica do terreno.
O condomínio já possuía um projeto elaborado meses antes por outro profissional. As imagens impressionam. Implantação colorida, bons traços aos olhos apressados de quem observa apenas a superfície do desenho. Porém, bastou aprofundar a leitura para perceber o silêncio do perigo, técnica ausente e a forma irresponsável de usar uma ferramenta sem ter conhecimento real da área projetada.
O terreno, com seu declive acentuado, havia sido praticamente ignorado. A piscina, bela no render e monumental na composição, ocupava o centro do lote e avançava de maneira quase absoluta sobre aquele magnífico retângulo. Restava apenas o consolo de ver os recuos minimamente respeitados. Arquitetura não é uma apresentação colorida; é preciso conhecimento técnico para defender o projeto e o que é demonstrado com desenhos poder ser executado.
Solicitei imediatamente a topografia com suas curvas de nível. Também pedi acesso à legislação urbanística do município, porque nenhuma proposta pode existir fora da responsabilidade técnica e legal. O problema se revelou de forma incontestável: aquela piscina, se executada exatamente como desenhada, transformaria-se em uma espécie de barragem, com mais de dez metros de altura em determinados pontos. Um feito plástico convertido em risco estrutural. Faltou o essencial: ouvir o terreno.
Esqueceram que arquitetura não é apenas composição de volumes ou imagens capazes de encher os olhos no Instragram. Existe um caminho silencioso entre a ideia e a obra construída, um percurso feito de estudo, topografia, insolação, drenagem, contenção, legislação, estrutura e responsabilidade. Quando tudo isso não acontece surge a irresponsabilidade técnica. Vivemos um tempo em que a inteligência artificial produz imagens impressionantes em segundos. E, de fato, ela pode ser uma aliada extraordinária para acelerar processos, reduzir erros, ampliar possibilidades e potencializar apresentações em inúmeras profissões. O CAD revolucionou o desenho técnico como uma prancheta virtual de precisão. O BIM elevou o controle e a integração dos projetos a outro patamar. A IA surge agora como mais uma ferramenta nesse processo inevitável de evolução. Acompanhei essa evolução prancheta - CAD - BIM. Comecei adolescente a compreender a importância da arquitetura...
Nenhuma tecnologia substitui a sensibilidade técnica de um arquiteto preparado. Nenhum algoritmo é capaz de sentir o desejo de uma família, o terreno, interpretar suas limitações naturais ou compreender a delicada relação entre estrutura, paisagem e conforto. Ferramentas evoluem; responsabilidade e capacidade profissional continua sendo insubstituível.
O mais difícil naquela conversa não foi identificar os erros. Foi perceber que o cliente já havia se apaixonado por uma imagem impossível de ser implantada. E quando a fantasia ocupa o lugar da técnica, reconstruir a confiança no processo exige mais do que conhecimento: exige ética, clareza e maturidade profissional. Declinei do projeto, a concepção enraizada jamais deixaria de ser um partido para projetos futuros. O contato com o cliente, o terreno e o entorno será sempre o começo de qualquer projeto. Ainda é possível afirmar que o atendimento humanizado será a grande sacada aos bons profissionais.



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